A conduta adequada é expectante, sem medicamentos, com monitoramento da PA na unidade. Antes de iniciar anti-hipertensivo, é necessário confirmar o diagnóstico fora do consultório (MAPA ou MRPA), medir PA ortostática e avaliar fragilidade, pois a PA elevada no consultório pode ser hipertensão do avental branco.
Achados-chave
- 82 anos
- três medidas elevadas em consultório
- sem confirmação fora do consultório
- assintomática
- sem história de HAS
Como pensar a questão
- Identificar que a paciente tem PA elevada no consultório, mas sem confirmação fora dele.
- Reconhecer a possibilidade de hipertensão do avental branco, comum em idosos.
- Avaliar risco de hipotensão postural e quedas em octogenária.
- Optar por conduta não medicamentosa inicial, com monitorização e confirmação diagnóstica.
- Considerar tratamento farmacológico apenas após confirmação e avaliação de risco.
Conceito central
A hipertensão arterial no idoso é altamente prevalente e constitui um dos principais determinantes de acidente vascular cerebral, insuficiência cardíaca, doença arterial coronariana e declínio cognitivo. O envelhecimento leva à rigidez das grandes artérias e perda da complacência vascular, resultando em aumento da pressão sistólica e, frequentemente, em hipertensão sistólica isolada, a forma mais comum nessa faixa etária. O diagnóstico deve ser confirmado com medidas repetidas da pressão arterial, idealmente fora do consultório, por meio da monitorização residencial (MRPA) ou ambulatorial (MAPA), já que é alta a prevalência de hipertensão do avental branco e de variabilidade pressórica. Também é essencial medir a pressão ortostática, uma vez que a hipotensão postural é comum e pode causar tonturas, quedas e síncopes, especialmente quando há uso inadvertido de medicamentos anti-hipertensivos. A conduta inicial deve sempre incluir mudanças de estilo de vida, com redução do consumo de sal, adoção de dieta balanceada (como a dieta DASH), prática regular de atividade física conforme tolerância, manutenção do peso adequado, limitação do consumo de álcool e cessação do tabagismo. Essas medidas isoladas podem reduzir significativamente os níveis pressóricos e o risco cardiovascular global. Quando a pressão arterial sistólica é ≥ 140 mmHg, de forma sustentada, o tratamento farmacológico deve ser considerado, principalmente em pacientes com risco cardiovascular elevado ou lesão de órgão-alvo. A introdução das drogas deve ser gradual, com doses baixas e monitorização próxima da função renal, potássio sérico e tolerância clínica, para evitar hipotensão sintomática. As classes mais indicadas são os diuréticos tiazídicos, os bloqueadores dos canais de cálcio, os inibidores da ECA e os bloqueadores dos receptores de angiotensina II (BRA). Essas drogas têm eficácia comprovada nessa população e boa tolerabilidade quando bem ajustadas. Os benefícios do tratamento anti-hipertensivo em idosos foram demonstrados em múltiplos estudos clínicos. O SHEP (Systolic Hypertension in the Elderly Program) mostrou que o controle rigoroso da hipertensão sistólica em idosos reduziu em 36% o risco de AVC e em 27% o risco de eventos cardiovasculares maiores. O HYVET (Hypertension in the Very Elderly Trial), que incluiu pacientes com 80 anos ou mais, demonstrou que o uso de indapamida (com ou sem perindopril) reduziu em 30% o risco de AVC, em 64% o risco de insuficiência cardíaca e em 21% a mortalidade por todas as causas, confirmando que mesmo os muito idosos se beneficiam do tratamento. O SPRINT (Systolic Blood Pressure Intervention Trial), em sua subanálise de idosos, evidenciou que metas pressóricas mais baixas (PAS < 120 mmHg) reduziram mortalidade cardiovascular e global, embora com maior risco de efeitos adversos, reforçando a necessidade de individualização do tratamento. Quanto às metas pressóricas, em idosos robustos e sem limitações funcionais, busca-se valores inferiores a 130 x 80 mmHg, desde que bem tolerados. Em pacientes frágeis, com múltiplas comorbidades ou risco de quedas, metas mais conservadoras (em torno de 140–150 mmHg de PAS) são aceitáveis, priorizando a segurança hemodinâmica e a qualidade de vida.
Regra de bolso
Antes de medicar idoso com PA elevada, confirme fora do consultório e avalie risco de quedas.