Cirurgia

Questão 24ENAMED 2025

Resposta correta: alternativa D. Tema: Abdome agudo inflamatório.

Enunciado

Mulher de 27 anos com dor abdominal iniciada em epigástrio há 2 dias, migrando para fossa ilíaca direita há 1 dia, associada a náuseas, anorexia e febre de 38,2°C. Exame físico com descompressão brusca dolorosa em QID. Última menstruação há 23 dias, ciclos regulares. Considerando o diagnóstico mais provável, qual a conduta adequada?

  1. Iniciar antibioticoterapia empírica até resultado de urocultura.
  2. Realizar tomografia de abdome e iniciar metotrexato.
  3. Iniciar antibioticoterapia empírica e acompanhamento ambulatorial.
  4. Realizar ultrassonografia de abdome e solicitar parecer cirúrgico.

Gabarito oficial

A alternativa correta é a D: Realizar ultrassonografia de abdome e solicitar parecer cirúrgico.

Correção comentada

Revisado editorialmente

A conduta correta é realizar ultrassonografia de abdome e solicitar parecer cirúrgico, pois o quadro é sugestivo de apendicite aguda, e em mulheres em idade fértil é necessário confirmar o diagnóstico com imagem antes da cirurgia.

Achados-chave

  • dor migratória para fossa ilíaca direita
  • febre de 38,2°C
  • descompressão brusca dolorosa em QID
  • mulher em idade fértil

Como pensar a questão

  1. Reconhecer quadro clássico de apendicite: dor migratória, febre, Blumberg.
  2. Em mulheres, considerar diagnósticos diferenciais ginecológicos.
  3. Solicitar exame de imagem (US ou TC) para confirmar.
  4. Encaminhar ao cirurgião para apendicectomia.

Conceito central

Apendicite aguda: A apendicite é a causa mais comum de abdome agudo cirúrgico. O quadro típico inclui dor periumbilical ou epigástrica que migra para fossa ilíaca direita, anorexia, náuseas e febre baixa. Ao exame, pode haver dor à palpação em QID, descompressão brusca positiva (sinal de Blumberg). Em mulheres em idade fértil, é essencial excluir causas ginecológicas, como cisto ovariano, torção de ovário ou gravidez ectópica. A ultrassonografia é o primeiro exame, mas a tomografia com contraste é o padrão-ouro. O tratamento é cirúrgico, com apendicectomia, preferencialmente por laparoscopia. Antibioticoterapia é adjuvante, não substituta.

Regra de bolso

Dor migratória + Blumberg = apendicite até prova contrária; em mulher, US antes de operar.

Tema central

Apendicite aguda em mulher em idade reprodutiva: reconhecimento clínico, exclusão de gestação/diferenciais ginecológicos e avaliação cirúrgica sem atraso

Alternativa por alternativa

A · incorreta

Incorreta. O quadro não é construído como infecção urinária; esperar urocultura enquanto se trata empiricamente ignora dor migratória para FID e peritonismo. Apendicite deve ser investigada prioritariamente.

B · incorreta

Incorreta. Tomografia pode ser apropriada para dor em FID e apendicite, mas metotrexato é tratamento de gestação ectópica em pacientes rigorosamente selecionadas, após confirmação diagnóstica e critérios de segurança. Nada no enunciado autoriza presumir ectópica ou administrar metotrexato.

C · incorreta

Incorreta. Antibiótico e seguimento ambulatorial isolados são inadequados diante de provável abdome agudo com irritação peritoneal. Mesmo estratégias não operatórias para apendicite não complicada exigem diagnóstico, seleção, acompanhamento estruturado e decisão compartilhada.

D · correta

Correta entre as opções. Ultrassonografia pode ajudar a confirmar apendicite e avaliar diferenciais pélvicos, e o parecer cirúrgico é apropriado diante do quadro. A ressalva é que, em adulta não grávida, TC também pode ser a modalidade de maior acurácia; portanto a correção não deve ensinar 'mulher = US obrigatória'.

Diretriz vigente na época da prova

Na época do ENAMED 2025, as diretrizes WSES 2020 recomendavam integrar avaliação clínica/escores e imagem para reduzir apendicectomias negativas e atrasos, reconhecendo ultrassom como ferramenta inicial útil e TC como método de maior acurácia quando necessário. O ACR 2022 classificava TC de abdome/pelve com contraste como geralmente apropriada para dor em quadrante inferior direito em adultos, enquanto ultrassom era uma opção possível. Para dor pélvica em idade reprodutiva, teste de gravidez e ultrassonografia têm papel central na avaliação de causas ginecológicas. Portanto, D era a melhor alternativa, mas não porque toda mulher fértil obrigatoriamente deva fazer US antes da cirurgia.

  • Di Saverio S et al. Diagnosis and treatment of acute appendicitis: 2020 update of the WSES Jerusalem guidelines. World J Emerg Surg. 2020;15:27. DOI: 10.1186/s13017-020-00306-3.
  • American College of Radiology. ACR Appropriateness Criteria® Right Lower Quadrant Pain. Revised 2022.
  • American College of Radiology. ACR Appropriateness Criteria® Acute Pelvic Pain in the Reproductive Age Group. Revised 2023.

Como a recomendação está hoje

Em 2026, o princípio permanece: apendicite é diagnóstico clínico apoiado por imagem quando necessário, e a modalidade é escolhida conforme idade, gestação, probabilidade clínica, disponibilidade e experiência. TC continua altamente acurada em adultos não grávidos; ultrassonografia segue valiosa para reduzir radiação e avaliar causas ginecológicas, com TC ou RM como segunda linha em cenários apropriados. Estratégias antibiótico-primeiro existem para alguns casos de apendicite não complicada, mas não justificam manejo ambulatorial empírico sem diagnóstico e sem avaliação cirúrgica.

  • World Society of Emergency Surgery. WSES Jerusalem guidelines for acute appendicitis — current framework in 2026.
  • American College of Radiology. Appropriateness Criteria for right lower quadrant pain and acute pelvic pain — current guidance accessed in 2026.

O que mudou — e o que não mudou

A resposta D continua adequada. O principal refinamento é abandonar a frase simplista 'em mulher em idade fértil, ultrassom antes de operar'. O cuidado contemporâneo começa por considerar/testar gestação e escolhe imagem de forma individualizada; em adulta não grávida, TC frequentemente tem maior acurácia. O que não mudou é a necessidade de não atrasar avaliação cirúrgica quando o quadro é fortemente sugestivo de apendicite com peritonismo.

Fonte oficial

INEP · Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica 2025.

Caderno oficial ↗ · Gabarito oficial ↗

Referências

  • https://download.inep.gov.br/enamed/provas_e_gabaritos/2025_caderno_1.pdf
  • https://download.inep.gov.br/enamed/provas_e_gabaritos/2025_gabarito_caderno_1_v2.pdf
  • https://www.gov.br/inep/pt-br/areas-de-atuacao/avaliacao-e-exames-educacionais/enamed

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