Medicina Preventiva e Social

Questão 35ENAMED 2025

Resposta correta: alternativa D. Tema: Luto normal.

Enunciado

Mulher de 52 anos, em acolhimento na UBS, apresenta choro intenso, insônia e hiporexia desde a morte do filho há 3 dias, vítima de atropelamento. Relata sonhos com o ocorrido, mas nega ideação suicida. Sem antecedentes psiquiátricos. Após acolhimento, acalma-se e pede ajuda. Qual a conduta adequada para essa paciente em luto recente?

  1. Prescrever inibidor de recaptação de serotonina para alívio dos sintomas depressivos e ansiosos.
  2. Encaminhar ao Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) para seguimento intensivo com médico psiquiatra.
  3. Encaminhar para psicologia na atenção secundária para ofertar terapia psicanalítica breve.
  4. Acompanhar longitudinalmente para observação e ofertar apoio pela equipe da UBS.

Gabarito oficial

A alternativa correta é a D: Acompanhar longitudinalmente para observação e ofertar apoio pela equipe da UBS.

Correção comentada

Revisado editorialmente

A conduta adequada é acompanhar longitudinalmente e ofertar apoio pela equipe da UBS, pois se trata de luto normal, sem critérios para intervenção medicamentosa ou encaminhamento especializado. O acolhimento e o suporte na atenção primária são suficientes, com reavaliação periódica para detectar complicações.

Achados-chave

  • Morte do filho há 3 dias
  • Choro copioso
  • Insônia e hiporexia
  • Nega ideação suicida
  • Sem antecedentes psiquiátricos
  • Melhora após acolhimento

Como pensar a questão

  1. Identificar luto recente (3 dias) com sintomas esperados.
  2. Descartar risco de suicídio (paciente nega ideação).
  3. Reconhecer que não há critérios para diagnóstico psiquiátrico.
  4. Aplicar princípios de atenção primária: acolher, apoiar, acompanhar.
  5. Ofertar seguimento longitudinal para monitorar evolução.

Conceito central

O luto é uma reação normal à perda de um ente querido, caracterizada por sofrimento intenso, mas que tende a se resolver com o tempo. No luto normal, os sintomas como tristeza, insônia, hiporexia e choro são esperados e não configuram transtorno mental. O diagnóstico de luto complicado é feito quando os sintomas persistem por mais de 6 meses ou causam prejuízo funcional significativo. O manejo do luto normal na atenção primária envolve acolhimento, validação do sofrimento, suporte emocional e acompanhamento longitudinal. Não há indicação de psicofármacos, pois eles não alteram o curso natural do luto e podem medicalizar o processo. O encaminhamento para serviços especializados (CAPS, psicoterapia) é reservado para casos de luto complicado, transtorno depressivo maior, risco de suicídio ou outros transtornos mentais graves. A equipe de saúde da família deve oferecer escuta ativa, orientar sobre o processo de luto e monitorar sinais de complicação.

Regra de bolso

Luto recente sem risco: acolher, apoiar e acompanhar na UBS; sem medicação.

Tema central

Luto agudo normal versus transtorno mental e manejo longitudinal na APS

Alternativa por alternativa

A · incorreta

Incorreta. ISRS não é indicado de rotina para luto agudo normal sem critérios de depressão maior ou outra síndrome tratável. Medicalizar automaticamente os primeiros dias de luto pode gerar iatrogenia sem benefício demonstrado.

B · incorreta

Incorreta. CAPS intensivo não é necessário apenas pela intensidade emocional inicial quando não há risco suicida, psicose, desorganização grave ou transtorno mental severo persistente.

C · incorreta

Incorreta como conduta obrigatória inicial. Psicoterapia pode ser ofertada conforme necessidade e preferência, mas não há indicação automática de atenção secundária nem de uma técnica específica nos primeiros dias de um luto esperado.

D · correta

Correta. Acompanhamento longitudinal e apoio na APS respeitam o processo de luto e permitem identificar precocemente sinais de evolução desfavorável.

Diretriz vigente na época da prova

Em 2025, DSM-5-TR e recomendações de saúde mental já diferenciavam luto normal de transtornos psiquiátricos persistentes e enfatizavam avaliação de risco, suporte psicossocial e acompanhamento. Três dias de sofrimento intenso após perda não constituíam, por si só, indicação de antidepressivo ou CAPS intensivo.

  • American Psychiatric Association. DSM-5-TR. 2022.
  • World Health Organization. mhGAP Intervention Guide, princípios de apoio psicossocial em sofrimento agudo.

Como a recomendação está hoje

A prática atual permanece alinhada: luto agudo sem risco ou síndrome psiquiátrica independente é manejado com acolhimento, suporte e seguimento. Transtorno de luto prolongado em adultos requer persistência por pelo menos 12 meses no DSM-5-TR, além de critérios de intensidade e prejuízo.

  • American Psychiatric Association. DSM-5-TR e atualizações oficiais posteriores.
  • WHO mhGAP, versão vigente consultada em 2026.

O que mudou — e o que não mudou

Não houve mudança relevante na conduta entre a prova e 2026. A correção importante é retirar a afirmação antiga de que 'luto complicado = sintomas por mais de 6 meses' como regra universal: o DSM-5-TR usa pelo menos 12 meses em adultos para transtorno de luto prolongado.

Fonte oficial

INEP · Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica 2025.

Caderno oficial ↗ · Gabarito oficial ↗

Referências

  • https://download.inep.gov.br/enamed/provas_e_gabaritos/2025_caderno_1.pdf
  • https://download.inep.gov.br/enamed/provas_e_gabaritos/2025_gabarito_caderno_1_v2.pdf
  • https://www.gov.br/inep/pt-br/areas-de-atuacao/avaliacao-e-exames-educacionais/enamed

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